“Autoridade Digital” - a patologia das redes


A internet é, por princípio, um território livre e as redes sociais um ambiente democrático. Todos podem se expressar livremente, basta abrir uma conta, criar um canal ou um perfil em qualquer rede social, contanto que não infrinjam os termos de uso, as regras e diretrizes as quais todos os usuários estão submetidos e obrigatoriamente devem concordar e seguir para poder acessar e usar a rede.


Depois de marcar a caixinha “li e concordo com os termos de uso” - sem nunca ter se dado ao trabalho de realmente ler - a pessoa passa a existir no digital e um mundo de possibilidades ilimitadas se abre na cabecinha dela: terei legiões de seguidores/fãs, milhares de likes, mil comentários e compartilhamentos, agora minha voz será ouvida.


Só que as coisas não funcionam bem assim - se não está acontecendo, é porque você não está fazendo direito. Não conhece os 10 Erros, as 7 Regras, os 4 Pilares, a Fórmula para ter sucesso “garantido” na internet.


“A internet deu voz a uma legião de imbecis”


Ninguém que já tenha navegado um pouquinho pelas redes, e esteja em sã consciência, pode discordar da afirmação acima, proferida por Umberto Eco em 2015. Mas a internet também abriu um oceano de oportunidades para quem entende um pouquinho de psicologia do consumidor e sabe embalar e oferecer, por um preço nada módico, a realização das aspirações desta legião.


Segundo praticamente todos os gurus do marketing digital, a pedra de toque é que você precisa primeiro se tornar "Autoridade Digital”, aí sim você vai dar certo e ganhar muito, muito dinheiro nas redes. E entre estes há alguns que realmente têm background comprovado em marketing e sabem que isto é bobagem, mas a promessa vende.


Autoridade tem a ver com poder, com dominação


Poder é o exercício da vontade de “alguém” sobre outros.

A dominação é a aceitação e a subordinação ao poder exercido por este “alguém”, legitimando a dominação e o poder que este “alguém” exerce.


O conceito de autoridade tem origem em preceitos gregos (aristotélicos-platônicos). Os romanos, para dar legitimidade aos governantes, basearam-se nestes preceitos e formaram a auctoritas. Segundo Hanna Arendt, autoridade está calcada em critérios que asseguram legitimidade e obediência.


Em ciências sociais, autoridade é a capacidade, inata ou adquirida, manifestada por um indivíduo ou grupo de exercer ascendência sobre outros indivíduos ou grupos que a aceitam voluntariamente.


Segundo Max Weber, em seu texto “Os Três Tipos de Dominação Legítima”, o poder pode legitimar-se de três formas: Legal, Tradicional e Carismática. Que podemos simplificar dizendo que se referem respectivamente a autoridade do Estado, a autoridade conferida pela tradição de uma sociedade e a capacidade carismática de uma pessoa em mobilizar massas e comandar as pessoas.


No dicionário, a palavra autoridade tem como principal significado o direito ou poder de se fazer obedecer, de dar ordens, tomar decisões, de agir.


Não obedecer uma autoridade institucionalizada pode te levar para a cadeia ou fazer você arder no fogo do inferno.


Autoridade é relativo a pessoa ou entidade que possui o direito, legalmente estabelecido, de se fazer obedecer - autoridade legal, autoridade policial, autoridade eclesiástica etc. Ou seja, autoridade é algo institucionalizado, que vem de cima para baixo, e ai de você se não reconhecer e obedecer a estas autoridades.


Se formos para o campo político, autoridade e autoritarismo, apesar de antagônicos, muitas vezes andam de mãos dadas.


O anarquismo – enquanto conceito político, filosófico e ideológico - rejeita a legitimidade da autoridade política pois vê a maioria das leis como artifícios de controle. O anarquismo se opõe a todo tipo de hierarquia e dominação -um dos maiores inimigos dos fascistas na Itália foram os anarquistas.


Quando vejo legiões ingressando nas redes sociais com o objetivo de se tornarem “Autoridade Digital” fico me perguntando o que leva estas pessoas a quererem ser autoridade? Que mecanismos psicológicos as movem nesta direção? Seria só uma questão de ego e vaidade ou isto teria raízes mais profundas?


Quando alguém vende a ideia que pode transformar qualquer um em “Autoridade Digital” e há compradores, quem compra é ingênuo ou possui algum transtorno psicológico?


Megalomania, narcisismo, culto à personalidade


Megalomania

Transtorno psicológico definido por fantasias e delírios de poder, grandeza e onipotência. O megalomaníaco tem a autoestima desproporcional e um fascínio exagerado sobre si mesmo, sempre fantasiando situações onde ele é exageradamente reverenciado e - pasmem - precisa de um rebanho de seguidores.


Narcisismo

O transtorno de personalidade narcisista é uma condição mental em que as pessoas têm um senso inflado de sua própria importância, uma profunda necessidade de atenção e admiração excessivas, relacionamentos conturbados e falta de empatia pelos outros.

Algumas características do narcisista:

· Senso exagerado de auto-importância e falta de empatia

· Sensação de direito de exigir admiração constante e excessiva

· Esperam ser reconhecidos como superiores, mesmo sem conquistas que comprovem isso

· Exageraram em suas conquistas e talentos

· Fantasiam sobre sucesso, poder, brilho, beleza

· Acreditam que são superiores e só podem se associar com pessoas igualmente especiais

· Monopolizam as conversas e menosprezam os que consideram inferiores

· Esperam favores especiais e cumprimento inquestionável de suas expectativas

· Aproveitam-se dos outros para conseguirem o que querem


Culto a personalidade

Uma forma de propaganda que eleva a figura de líderes políticos a dimensões religiosas. Este tipo de propaganda promove, de forma exagerada, os méritos e qualidades dos líderes em questão, ocultando sempre quaisquer críticas ou defeitos que possam fazer parte de sua personalidade e trajetória.


Personagens famosos da nossa história com estas características que trabalharam o culto a personalidade brilhantemente em sua comunicação vão de Hitler a Obama, de Osho a Monja da Ambev.


E quando descubro que o que caracteriza um psicopata é sua necessidade de domínio e poder sobre os outros, chego a triste conclusão que o desejo de ser “autoridade digital” faz parte de um mix de patologias.


Estar na internet querendo se destacar é patológico?


Claro que não. Pessoas normais com ambições legítimas constroem e pavimentam seu caminho digital com realizações concretas e comprováveis. Têm constância e coerência. Usam estrategicamente as ferramentas a seu favor, querem se destacar pelo seu trabalho em determinada área, tema ou assunto. São pessoas que têm história fora do digital e estão neste ambiente para se expor e ampliar público.


Estas pessoas não surgiram do nada e resolveram virar “Autoridade Digital” para dominarem e explorarem seus rebanhos com o objetivo de ficarem milionárias da noite para o dia, fazendo $eis em sete ou $ete em um.


Entendo que não há nada de errado com as pessoas que usam as redes sociais a seu favor, que profissionalizam a comunicação, que conseguem visibilidade e, ao longo do tempo, constroem uma reputação positiva a ponto de serem reconhecidas como referência (e não autoridade) pelo seu público.




Ilustração: Freud by Eki D. Surya



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